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24 outubro, 2019

dúvidas

Um dos mistérios da humanidade
Bentinho traiu mesmo Capitú?

ou 


Tom Zé, fotografou ou não um cú?


Oratório Vadio


Numa tarde deserta o sabor da ausência 
penetra o vazio,
tudo o que restou entregue às moscas.


Dias assolados pela peste da desconfiança, 
A amargura ressoa doce 
Como o último suspiro de uma barata envenenada.


Quero ouvir o som de passarinhos,
Ser abraçada por crianças, 
Sentir a brisa sufocante de um fim de tarde,
Preciso estar longe da humanidade.

02 outubro, 2013

Pouca Fala

Como é fácil dizer. É abrir a boca
e deixar que se livre, como um rio
perdido de si mesmo, o desvario.
Aprendi: toda vez que deixo a boca
entregar-se à aventura da verdade,
não demora a traição da liberdade
me devolve a palavra desalada.
O tempo é o do fazer silencioso
e um pouco de canção, brasa que o azul
do sonho que trabalha vai lavrando.
Como a terra que abriga e dá caminho
a um sonho de semente que não sabe
que abre um rastro de luz na escuridão.

  (Thiago de Mello)


01 agosto, 2013

Salexistência

Salário

Sal

salga meus sonhos
meus olhos


Sal

que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência

A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.

(De Primeiros fragmentos)

Tenório Telles

06 abril, 2013

Predestinação



— Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!
E ela:
— Deus te ouça, minha mãe…
Deus te ouça…

Ascenso Ferreira




A humanidade progride, luta pela perfeição. Tudo que agora está fora de nosso alcance um dia será compreensível e trivial; só que é preciso trabalhar, ajudar com toda nossa força aos que procuram soluções. Aqui na Rússia, por enquanto, são muitos os que falam, poucos os que trabalham. Os intelectuais que conheço não procuram nada, não fazem nada; ficam doentes só com a ideia de qualquer esforço. Intitulam-se humanistas, mas tratam os criados como inferiores e os camponeses como animais. Não sabem coisa alguma, não querem aprender nada, não leem nada a sério e nunca fazem nada. O que falam sobre ciência é ridículo e seu conhecimento de arte pouco mais que zero. São todos muitos sérios, usam caras profundas, discutem assuntos impenetráveis, fazem especulações filosóficas incontestes, e não veem que em volta, todos – 95 por cento do povo – vivem como selvagens, se insultando e estraçalhando à menor provocação. Comem lixo podre, dormem na imundície e na umidade, trinta ou quarenta no mesmo quarto cheio de percevejos, fezes, fedor e consequente degradação moral. É evidente que todos nossos belos discursos só têm uma função – enganar nós mesmos. Me digam onde é que estão essas creches de que se fala tanto? E as bibliotecas? E a habitação popular? Essas coisas só existem em novelas – na vida real eu nunca vi. Eu só vejo a desordem, a sujeira, a vulgaridade e a preguiça asiática. Eu temo e desprezo as caras austeras e os que falam com solenidade. Todos faríamos muitos mais calando a boca.”

TCHÉKHOV, Anton. O Jardim das Cerejeiras / Tio Vânia. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 45-46
 

20 março, 2013

Busco uma luz no fim
                    do túnel...
Minha energia foi  C O R T A D A.

14 março, 2013

VAZIO


A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar. 


                   (Augusto Frederico Schmidt)

14 fevereiro, 2013

Ao Desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m' espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.


               (Luíz Vaz de Camões)

17 janeiro, 2013

16 janeiro, 2013

LINGÜÍSTICA


Diz o lingüista:
- “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.

Diz o lingüista
- “a palavra cão não late”.
Late
E não me deixa dormir
com seus latidos.

Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.

                        ( Affonso Romano de Sant’Anna)

06 janeiro, 2013

Entro, e me encontro
Sinto, e me encanto
Cheiro, e me purifico
Me abro, me dispo
E nua me encubro com suas páginas...
...Livros!



                       (Mitha Ferreira)

26 dezembro, 2012

Morrer de viver

A cada dia se morre de forma diferente.

- A morte anda sofisticada...

O ÓPIO

"Dizem os comunistas que a religião é o ópio do povo;
 outros dizem que o ópio do povo é o comunismo; 
 se me pedissem a minha opinião, 
 eu diria que o ópio do povo é o trabalho”.

                                      (Mário Quintana)

23 dezembro, 2012

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES

"Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse a minha verdade: Estou louco de amor."


MÁRQUEZ, Gabriel García. Memórias de minhas putas tristes. Rio de Janeiro: Record, 2005. 127 p. 

08 dezembro, 2012

FOTOPOETOGRAFIA

" Tendo a alma fora
  Canta a sombra ufana
  Rasga tudo que fora"

     (Jimmy Marcone)







Fotos: Douglas Souza


http://cenarioinvisivel.blogspot.com.br/2011/01/tendo-alma-fora-canta-sombra-ufana.html

26 setembro, 2012

VELHINHA



Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa”!…”


Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!


Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…


E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos…


                                 (Florbela Espanca)

01 agosto, 2012

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da font
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.


Edgar Allan Poe